Por Bronilda Hackbart – Vovó Cronista
Lembro que, na minha infância, era costume a família se reunir, à noite, ao pé do fogão a lenha, para conversas e brincadeiras. Às vezes, enquanto a mãe cuidava dos afazeres por ali, meu pai entretinha a filharada contando passagens de sua vida, sempre com riqueza de detalhes.
No dia a dia, ele era pacato, introvertido e de poucas palavras. Naqueles momentos, porém, virava um brilhante narrador. Suas mãos grandes, de veias salientes, gesticulavam sobre nossas cabeças e pareciam descerrar a cortina de um palco onde se encenavam histórias do passado. Cada um de nós procurava a melhor posição para assistir àquele espetáculo imperdível. Eu via tudo nitidamente, em preto e branco. Muitas cenas ficaram guardadas na minha memória e, certamente, também na dos meus irmãos.
Em uma noite chuvosa, depois da colheita do milho no quintal, meus manos e eu nos aconchegamos junto aos joelhos do pai para um jogo de adivinhação em que usávamos grãos de milho-verde assado. Cada jogador escondia certa quantidade nas mãos fechadas, e os demais precisavam adivinhar a soma de todos os grãos. Quem acertasse levava a rodada inteira, e podia saboreá-la de imediato. Ninguém pensava na falta de higiene do manuseio. O que importava mesmo era abocanhar o cereal fresco, com gosto de vitória.
Já cansados do jogo, empanturrados de milho e inebriados da fumaça de lenha, ouvimos o chorinho persistente do bebê de Dona Anésia, nossa vizinha. Não era a primeira vez que a criança perturbava o sossego da família. Foi então que meu pai se lembrou de outra criança, encontrada muitos anos antes, à beira do rio Uruguai.
Levantou-se e perguntou se queríamos ouvir a história.
Óbvio que sim!
Naquele instante, muito mais do que a luz bruxuleante da lamparina a querosene, oito olhinhos atentos iluminaram a cozinha.
O caso acontecera durante uma incursão que meu pai fizera, ainda jovem, pelas matas da região de Porto Xavier, na companhia de um amigo de sua idade. Os dois estavam em busca de um lugar propício para caçar e pescar.
Quando ele mencionou a caçada, lembrei de uma fotografia antiga em que meu pai aparecia ao lado de outro rapaz; ambos com as calças arremangadas, chapéus de barbicacho jogados para trás do pescoço e enormes revólveres na cintura. Deviam ter pouco mais ou menos vinte anos. Imaginei que o companheiro daquela aventura fosse parecido com o rapaz musculoso da fotografia.
Meu pai contou que, certo dia, na primavera de 1926, ele e o inseparável amigo haviam caminhado bastante pelo interior de matas nativas. Ao cair da tarde, decidiram pernoitar sob a vegetação espessa, à margem do rio. Estavam terminando de construir um abrigo improvisado com bambus e folhagens quando ouviram um forte choro de neném.
Aquilo era muito estranho. Não se via vivalma naquelas bandas.
Procuraram por todos os lados, mas não encontraram ninguém. Logo depois, o choro recomeçou. A cada passo que davam em direção ao som, a criança se calava. Quando interrompiam a busca, o choro voltava, insistente, como se alguém os chamasse.
O céu já escurecia, e os dois se apressaram em descobrir de onde vinha aquele lamento. O som parecia sair de uma canoa abandonada entre os juncos, bem perto dali.
Guiado pelo choro, meu pai arregaçou as bombachas e entrou na água. Ao alcançar a embarcação, puxou um pedaço de lona velha que a cobria e ficou imóvel por alguns instantes. O choro persistia, vindo de um embrulho de trapos no fundo da canoa.
Devagar, com cuidado, tomou nos braços aquele charutinho humano e o levou para perto do companheiro. O embrulho era leve e cheirava à água do rio.
Quando o amigo afastou o pano roto que o envolvia, os dois rapazes ficaram paralisados de espanto. O que apareceu diante deles foi um pequeno esqueleto infantil, muito branco, que reluzia sob os primeiros raios de lua.
Meu pai soltou imediatamente o pacote macabro. As pernas lhe bambearam, e ele saiu correndo atrás do companheiro, que já ia longe. Nunca mais voltaram a pisar ali!
Fiquei profundamente impressionada com aquele causo contado pelo pai, o nosso herói, que não errava e não costumava mentir. Afinal, se ele dizia que acontecera, só podia ser verdade!
Por muito tempo, depois daquela noite, bastava ouvir o choro do bebê da vizinha para que um arrepio me percorresse o corpo. O sono sumia, e minha imaginação voltava àquela canoa abandonada, aos juncos balançantes e à visão aterrorizante do pequeno esqueleto luzidio.
Assim, muitas vezes, encolhida junto ao fogão a lenha, eu já não sabia se tinha mais medo do choro que vinha da casa de Dona Anésia ou da lembrança daquele outro, envolto em mistério, que meu pai jurava ter ouvido nas barrancas do rio Uruguai.