Lídia Sabbadini – Dentista e escritora
Há um cedro antigo aqui no jardim que observo há muitos anos. Conheço o desenho dos seus galhos, a inclinação do tronco e o lugar exato onde a sua sombra descansa no fim da tarde. De tanto olhar para ele, às vezes penso que já o conheço inteiro.
Então, chega a primavera.
Pelos galhos grossos, começam a surgir brotos bem pequenininhos. São verdes, novos, daqueles que os bugios adoram comer. Chegam a ser quase transparentes. A luz do sol atravessa esse verde claro, e eu fico ali, admirando aquela delicadeza tão nova sustentada por uma madeira de tantos anos.
A árvore inteira tem uma história. Aqueles brotinhos estão começando a deles agora. Mas tudo é a mesma árvore.
Aos 72 anos, essa imagem me fez companhia nesta manhã.
Pensei: eu sou como esse cedro. Há coisas em mim que vêm de muito longe. Um ensinamento antigo da minha avó, o jeito de pronunciar certas palavras que herdei da minha mãe, ou aquele sentimento que aparece de repente e que era a cara do meu pai.
Mas também há brotos novos que chegaram nesta semana. Uma pergunta em que eu nunca tinha pensado, uma ideia nova, a vontade de aprender algo que eu nem sabia que existia. Até no meu trabalho, descobri, talvez, um jeito mais poético de atender um paciente e de escrever livros. Tudo isso mora junto, dentro da mesma pessoa.
Talvez por isso seja tão difícil responder quando me perguntam a idade. Eu digo o número, claro: setenta e dois. Mas, enquanto a boca fala o número, aqui dentro convivem a menina que corria descalça e o entusiasmo de uma novidade que nasceu ontem.
No jardim da minha casa, essa convivência parece a coisa mais simples do mundo. O tronco antigo e forte segura o broto que acabou de nascer. As raízes continuam o seu trabalho silencioso debaixo da terra, enquanto, lá em cima, as folhas se abrem para a luz. O que é novo encontra apoio naquilo que teve tempo de crescer.
Gosto de pensar que com a gente é igual. A experiência de vida nos dá chão firme para ter ousadias. Depois de andar por tantos caminhos, a gente aprende a escutar melhor o próprio coração. Podemos começar alguma coisa só pelo prazer de fazer, sem cobrança.
Aprender uma música nova, uma oração diferente… Testar uma receita, um novo caminho, uma aula de hidroginástica… Fazer um novo amigo. Aceitar um chimarrão num horário que não era o de costume. Plantar uma verdura que nunca se plantou antes. Ou simplesmente sentar na cadeira e ficar olhando, sem pressa nenhuma, a lua cheia subir no céu. Existe uma alegria muito bonita em saber que temos algo para descobrir no dia de amanhã.
Isso não significa esquecer o peso dos anos. Uma árvore guarda as marcas das tempestades na sua casca grossa, e eu também guardo as minhas na pele. Meu corpo hoje pede outras esperas. Conheço os meus cansaços, respeito as minhas dores e aceito esse caminhar mais lento.
Agora eu vejo o broto do cedro com outros olhos. E, olhando para ele, também olho para mim. Percebo que ainda posso me surpreender com os meus próprios sonhos.
Os bugios continuam vindo todas as manhãs. Entre os galhos antigos, encontram o verde que acaba de nascer.
(Escrito especialmente para o Dia Internacional da Pessoa Idosa – 1º de outubro)