Felipe Borba, Delegado de Polícia e Mestre em Direito
“Eu achei que era culpa minha”.
Ouvir isso de uma aluna, vítima de atos de abuso por parte de um professor no ambiente escolar, integra o conjunto de situações desafiadoras da atividade policial.
Sem consciência do potencial de maldade de alguns, sobretudo de pessoas das quais se espera não apenas respeito, mas especial cuidado, esta jovem procurou, em si mesma, explicações para o comportamento do abusador.
Sua ingenuidade, conjugada ao desejo de preservar a figura idealizada do educador, talvez explique por que esta jovem, ao refletir sobre o assédio, assumiu uma responsabilidade que não lhe pertencia.
É absurdo afirmar que as ovelhas são culpadas pelos ataques dos lobos.
Mas, nas complexas relações humanas, por vezes ocorre este tipo de confusão: ovelhas com dificuldade de compreender que o ataque decorre unicamente da vontade do lobo, não de qualquer comportamento da vítima.
As crianças e os adolescentes têm dificuldade de perceber que, de tempos em tempos, surgem pessoas capazes de extrema crueldade, como os abusadores sexuais.
Esta ignorância tem um lado saudável. Tende a viver com mais leveza quem desconhece os lados sombrios da vida em sociedade.
Mas falar sobre comportamento é importante.
Da forma mais cuidadosa possível, crianças e adolescentes devem ser educados para não tolerar certas condutas. É importante que saibam que seus corpos não podem ser objeto de comentários inadequados por parte de adultos, muito menos de toques sem motivação legítima e sem válido consentimento.
O silêncio protege o agressor.
Crianças e adolescentes devem ser estimulados a falar sobre qualquer episódio dessa natureza.
Lobos existem. Sobre a vontade deles nada podemos fazer. Resta-nos impedir que encontrem oportunidades.
Falando sobre vontade, nunca esquecerei um dos muitos locais de suicídio que atendi durante a carreira.
Tratava-se de um indivíduo com pedofilia, mas sem qualquer antecedente policial. Na carta de despedida, escrevera:
“Eu sinto vontades que eu não deveria sentir, e eu posso fazer mal pra outras pessoas. Para que eu não faça mal pra ninguém, é melhor que eu não viva”.
A ideação suicida, derivada do sofrimento psíquico extremo, também surgiu na mente desta vítima do abusador.
Ouvi esta adolescente narrar:
“Eu já estava na cozinha, com a faca no meu pescoço e iria me cortar”.
Invoco esse episódio para que sirva de estímulo a que nos dediquemos à proteção de crianças e adolescentes, que não costumam imaginar os riscos reais a que estão submetidos e, assim, evitar as drásticas consequências que fatos dessa natureza produzem em seu pleno e sadio desenvolvimento.
Nessa linha, dispõe o artigo 227 da Constituição Federal que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, seus direitos fundamentais, colocando-os a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Para que outras crianças e adolescentes não sejam molestados, façamos a nossa parte.
Um provérbio africano diz: “quando o rebanho se une, o leão dorme com fome”.