Por Alan Caldas (Editor)
O Brasil teve e tem muitos jornalistas. Mas houve um jornalista que foi o mais importante de todos. Seu nome resumido é Assis Chateaubriand.
Chatô, como ele ficou conhecido, nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, em 4 de outubro de 1892. E morreu em São Paulo, em 4 de abril de 1968, tendo sido jornalista, escritor, advogado, professor de Direito, empresário, mecenas e político. Sua maior criação foi a rede de jornais Diários Associados. Mas foi ele, também, que “criou” a televisão no Brasil.
Vou narrar um pouquinho, bem pouquinho, da vida desse ilustre e genial jornalista.
História 1
Assis Chateaubriand fundou seu primeiro jornal em São Paulo. Pediu dinheiro emprestado para um figurão da época. O sujeito disse que sim, que seria sócio dele. Mas, ao ouvir isso, Chatô respondeu:
– Então guarde teu dinheiro. Jornal é como mulher: só pode ter 1 marido!
Logo a seguir ele, por ele, criaria um jornal. E genial que era, logo expandiu a rede, criando os Diários Associados.
História 2
Chatô não gostava de Getúlio Vargas. Dizem que ambos tiveram a mesma amante. Mas pode ser boato. Porém, quando Getúlio saiu do Poder e voltou para sua fazenda, em São Borja, no final da guerra, um outro jornalista, Samuel Weiner, empregado de Assis Chateaubriand, foi até São Borja e entrevistou Getúlio. Ninguém publicaria uma reportagem daquelas. Getúlio era persona non grata nos círculos do Poder e a imprensa “normal” não iria arriscar o pelo. Mas Chatô leu a entrevista pré-escrita por Samuel Weiner, perguntou se “tudo” estava exatamente como Getúlio dizia, e quando Weiner confirmou ele disse:
– Publique. Vamos engordar esse porco. Daí pode sair banha . . .
Aquela entrevista, publicada no Diários Associados, foi republicada em todos os jornais (exceto o do Carlos Lacerda, que era sustentado pela Igreja Católica do Rio de Janeiro) e também radiofonizada em todas as rádios. Graças a ela, Getúlio voltaria logo à frente “nos braços do povo”, através de uma eleição para Presidente.
História 3
Assis foi nomeado a certa altura da vida Embaixador do Brasil em Londres, onde representaria nosso país no Reino Unido.
Ali vivia Winston Churchill, o líder da guerra durante o conflito mundial. Chatô era da Paraíba e tinha criado a Comenda do Cangaço. E, como embaixador, contatou Churchill e disse que o “Brasil” iria homenageá-lo com “a maior honraria” do país. Churchill é claro que compareceu.
Chegando na Embaixada do Brasil em Londres, Assis Chateaubriand explicou, falando um inglês cheio de sotaque e meio que com farinha na boca, que o recebimento da Comenda do Cangaço era feito nos mesmos moldes em que a Rainha da Inglaterra concedia o título de “Sir” aos que eram agraciados. Mandou que Churchill, o “grande Churchill” se ajoelhasse perante ele. Churchill ajoelhou. Chatô então colocou na cabeça do ex-Chanceler inglês um chapeuzinho de cangaceiro e com um rebenque de montar jegue lhe deu 3 batidas nos ombros, declarando que Churchill a partir daquele momento seria “Comendador do Cangaço”.
Creio que Churchill jamais entendeu . . .
História 4
Noutra feita e ainda enquanto Embaixador em Londres, Assis Chateaubriand foi convidado como representante do Brasil no casamento da Rainha. A ordem era expressa: nada de fotos! As fotografias seriam todas tiradas pelo fotógrafo da realeza e, posteriormente, distribuídas a todos os convidados e veículos de comunicação.
Chatô não teve dúvida. Colocou seu smoking e entrou no Rolls-Royce da Embaixada. Mandou que seu fotógrafo pessoal vestisse um casacão bem longo, deitou o fotógrafo no chão detrás do Rolls-Royce e se mandou para o Palácio de Buckingham, onde seria a recepção aos convidados. Chegou lá. Se apresentou dentro do carro, com os pés sobre o fotógrafo que foi coberto por uma capa, e entrou.
Lá dentro, o fotógrafo escondeu a câmera embaixo do casaco e foi fotografando tudo. Ao final, Chateaubriand mandou que ele pegasse um avião e voasse para o Brasil. No dia seguinte, as fotos inéditas do Casamento Real estavam estampadas em páginas e páginas dos jornais Diários Associados, pelo país inteiro. O mundo inteiro copiou aquelas fotos. E, por anos, o Palácio de Buckingham tentou “em vão” descobrir “como” aquelas fotos foram feitas.
História 5
Assis Chateaubriand foi sempre um jornalista fino, elegante e extremamente culto, lia tudo que lhe caia às mãos. Ficou riquíssimo fazendo jornais e abrindo jornais pelo Brasil afora. Ele, porém, não ligava para os leitores. Dizia que só lhe interessavam 11 leitores, que eram o Presidente da República e os (então) 10 ministros. “Se esses me respeitarem, o resto me respeitará”, dizia ele. E cumpria o que prometia.
História 6
Um dia, em 1950, ele estava viajando pelos Estados Unidos e viu uma coisa que lhe fez arregalar os olhos. Chamavam aquilo de “televisão”. Chatô ficou encantado. Foi ver de perto e comprou a Estação de TV inteira. “Isso tem de ir para o Brasil”. E veio.
Chegando no Brasil, Assis Chateaubriand criou a TV Tupi, em São Paulo. Para que as pessoas vissem aquele fenômeno, “uma caixa com pessoas dentro, falando e se movendo”, Chatô mandou instalar algumas tevês em postes no Centro de São Paulo.
E aí surgiu um problema: as pessoas adoraram, mas ninguém tinha tevê. Chatô não se deu por batido. Mandou importar 2 navios cheios de aparelhos de tevê e botou à venda. Surgia, assim, em 18 de setembro de 1950, a primeira tevê do Brasil e da América Latina. O resto da história, você conhece.
História 7
Poderia escrever páginas e páginas sobre a vida do gigante Assis Chateaubriand, mas vou encerrar com uma última.
Chatô, como eu disse, era um homem muito culto. Sempre gostou de ler. Lia de tudo. Fino e culto que era, por onde viajava ele sempre visitava museus. Ia no Louvre, em Paris. Visitava o Del Prado, em Madri. Se abancava no Hermitage, em São Petersburgo.
Onde quer que fosse, Chatô visitava museus. Adorava obras de arte. E o Brasil era uma miséria cultural, em termos de museu. Nem havia museu aqui. Então, o jornalista Assis Chateaubriand resolveu meter o bedelho, como dizem os gaúchos.
Chamou o presidente do Banco do Brasil e pediu um “empréstimo. Bem grande. Nem disse para o que queria. Só pegou o dinheiro. Muito dinheiro. E, chamando uns assessores dele, mandou convocar a arquiteta italiana Lina Bo Bardi, que havia se naturalizado brasileira, e explicou a ela o que queria.
Lina Bo Bardi era visionária, raciocinava com grandeza, como Chatô sempre raciocinou, e ouvindo Assis Chateaubriand dizer que queria uma obra “à altura do Brasil”, Lina se atirou sobre as pranchetas e acabou desenhando vários prédios até chegar em um que Chatô entendeu estar “de acordo” com a grandeza do que ele queria: um edifício com vão livre de 74 metros sustentado por quatro pilares vermelhos.
Enquanto o projeto saía do papel para um terreno no Centro de São Paulo, Assis Chateaubriand chamou Pietro Maria Bardi, um crítico de arte, marchand e historiador italiano, e mandou ele “sair pela Europa” para procurar e comprar obras de arte famosas de pintores e escultores célebres.
Quando a obra estava pronta e os quadros e esculturas chegaram no Brasil, Assis Chateaubriand chamou todas as autoridades brasileiras e paulistas e inaugurou no dia 2 de outubro de 1947 o MASP, o Museu de Artes de São Paulo. O Brasil imediatamente entrou no circuito mundial de Museus e grandes obras da humanidade.
Até aqui, isso é uma história jornalística “normal”. Porém, e este é o detalhe histórico, o prédio e as obras tinham sido adquiridos com dinheiro daquele “empréstimo”, lembra? Aquele que Chatô fez no Banco do Brasil.
Passados alguns meses, o Banco do Brasil mandou um diretor falar com Assis Chateaubriand sobre o “pagamento” do empréstimo. Chatô recebeu o diretor, ofereceu cafezinho, sentou e avisou:
– Não vou pagar!
O diretor levou um susto. E disse:
– Mas doutor Assis, o senhor pediu emprestado . . .
E o doutor Assis respondeu:
– Meu amigo, eu não pedi para mim. Pedi para São Paulo. Porque é uma vergonha um país como o nosso não ter um museu à altura do seu povo. Se eu não fizesse, ninguém faria.
E não pagou. Passou o prédio, obras e tudo mais para o governo do estado de São Paulo, que assumiu o museu. E, se não fosse assim, muito provavelmente o Brasil ainda hoje estaria na idade das cavernas em termos de artes plásticas reunidas em Museu.
Esse, em resumidas palavras, foi o maior jornalista que o Brasil teve: Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo!