Fonte: Crescer / Foto: Pixabay
Se você é mãe ou pai de um pré-adolescente ou adolescente, provavelmente já se preocupa com o que ele acessa no celular e no computador. E essa inquietação cresce quando surge a dificuldade de se aproximar, de entender seus pensamentos, amizades e hábitos digitais.
Um novo estudo conduzido pela pesquisadora Soraia Marioti propõe ampliar esse olhar. Mais do que analisar os impactos das telas e das redes sociais, a pesquisa investiga a relação entre pais e filhos adolescentes. Entre agosto e outubro de 2025, foram ouvidos 1.180 pais e mães de todas as regiões do país.
O trabalho também incluiu 56 entrevistas com famílias e a consulta a psicólogos e pedagogos. O foco não esteve apenas no comportamento dos adolescentes, mas no que está por trás das decisões, ou da ausência delas, por parte dos adultos.
Os dados revelam que 72% dos adolescentes brasileiros passam entre duas e seis horas por dia em frente às telas, sendo que 25% ficam entre quatro e seis horas. Esse padrão se mantém estável independentemente de gênero, região, renda familiar ou tipo de escola. Em outras palavras, o tempo de exposição digital na adolescência já se consolidou como um comportamento nacional.
Há, porém, um ponto de atenção importante. A partir dos 14 anos, cresce de forma significativa o número de jovens que ultrapassam seis horas diárias de uso. YouTube, com 89%, e WhatsApp, com 86%, lideram como os espaços mais frequentados no dia a dia. Em seguida aparecem Instagram, com 72%, e TikTok, com 69%, reforçando o protagonismo das redes audiovisuais. Entre os jogos online, o Roblox se destaca, com 54%, especialmente entre os mais novos.
Efeitos no comportamento
Quando o assunto são os efeitos desse uso, o alerta é ainda mais forte. Apenas 4% dos pais afirmam nunca ter observado sintomas relacionados ao excesso de telas. Isso significa que 96% já perceberam algum impacto no bem-estar dos filhos. Entre os sinais mais comuns estão dificuldade de concentração, relatada por 52%, irritação ou agressividade, com 48%, ansiedade, com 47%, e mudanças repentinas de humor, com 38%.
Para Soraia, trata-se de um desafio coletivo. “Estamos lidando com uma indústria da tecnologia extremamente mais poderosa que as famílias. Seria injusto colocar toda essa responsabilidade apenas nas mãos dos pais. Por isso, movimentos de regulação, como o ECA digital, são tão importantes. É um processo parecido com o que aconteceu com o cinto de segurança ou o cigarro. Primeiro vêm os limites mais claros, depois, ou ao mesmo tempo, a mudança cultural”, afirma, em entrevista exclusiva à CRESCER.
Sobre os pequenos
Outro dado chama atenção. A infância digital está começando cada vez mais cedo. Quase metade dos pais, 47%, relata que os filhos passaram a ter contato mais intenso com telas entre 1 e 3 anos. Outros 34% dizem que isso aconteceu antes mesmo do primeiro ano de vida. O acesso mais tardio é minoria: 12% entre 4 e 7 anos e apenas 7% após os 7 anos.
Diante desse cenário, a orientação é clara. Adiar ao máximo o uso de telas na primeira infância, escolher com mais critério os conteúdos consumidos, buscar informação sobre o que está em alta entre os jovens e, principalmente, manter uma presença constante. Não apenas reagir quando algo dá errado, mas construir um diálogo contínuo e proativo no dia a dia.
A pesquisa também reforça um ponto importante. Esse cuidado ainda recai majoritariamente sobre as mulheres. “São as mães que estão mais presentes nas reuniões, nos grupos de WhatsApp, nas conversas com a escola e no acompanhamento emocional e digital dos filhos. Isso faz com que a educação midiática se torne mais uma camada da sobrecarga feminina. Quando falamos de novas formas de educar, também estamos falando de dividir responsabilidades e repensar a parentalidade como um todo”, conclui Soraia.