Fonte: Glamour / Foto: Pixabay
Compartilhar a localização em tempo real com o parceiro, mostrar com quem está conversando nas redes sociais ou justificar por que demorou alguns minutos para responder a uma mensagem.
Atitudes que podem parecer inofensivas, ou até ser interpretadas como demonstrações de cuidado e intimidade, também podem esconder comportamentos de controle dentro de um relacionamento. O problema é que nem sempre os jovens conseguem identificar quando esses hábitos ultrapassam os limites do respeito e passam a configurar abuso digital.
É o que aponta uma análise internacional realizada pela psicóloga e pesquisadora Nina Jane Patel, publicada no Stanford Journal of Trust and Safety, que embasa uma nova etapa do programa Abuso Não É Amor, da YSL Beauty.
Com base em entrevistas qualitativas aprofundadas com especialistas de organizações não governamentais de dez países, incluindo o Brasil, o trabalho investiga por que jovens de 16 a 24 anos têm dificuldade de reconhecer a violência praticada por parceiros por meio da tecnologia. Entre os principais fatores identificados estão a normalização da vigilância digital, a dificuldade de diferenciar cuidado de controle e a falta de repertório para nomear situações abusivas.
Quando o cuidado se transforma em controle
Um dos principais alertas da análise é que comportamentos como exigir senhas, monitorar a localização e cobrar respostas imediatas se tornaram tão presentes na rotina digital que muitas vezes deixam de ser questionados. A ausência de violência física também contribui para que essas práticas sejam minimizadas ou sequer reconhecidas como formas de violência psicológica.
Outro fator apontado é a maneira como a vigilância pode ser naturalizada desde cedo. Segundo o trabalho, o monitoramento realizado por pais e responsáveis, mesmo quando motivado pela preocupação com a segurança dos filhos, pode contribuir para a ideia de que quem ama não tem nada a esconder. Mais tarde, essa mesma lógica pode ser reproduzida nos relacionamentos amorosos, quando o acesso irrestrito à vida digital passa a ser tratado como prova de confiança.
A dificuldade de identificar esses comportamentos também está relacionada à linguagem. Embora sintam ansiedade diante do monitoramento constante, muitos jovens não encontram palavras para descrever o que estão vivendo. Assim, atitudes invasivas podem ser justificadas como “ciúme”, “proteção” ou até “intensidade”, dificultando o reconhecimento de uma dinâmica abusiva.
Os sinais de abuso digital nos relacionamentos
O controle digital pode aparecer de diferentes formas, nem sempre evidentes. Entre os comportamentos que merecem atenção estão a exigência de acesso às mensagens privadas, a fiscalização de curtidas e seguidores, a imposição de regras sobre o que o parceiro pode publicar e a cobrança constante por respostas.
Também são sinais de alerta ameaçar divulgar imagens íntimas, usar informações privadas como chantagem, obrigar o parceiro a bloquear amigos ou abandonar grupos de mensagens e utilizar o silêncio digital como forma de punição.
O ponto central não é a tecnologia em si, mas a maneira como ela é utilizada dentro da relação. Compartilhar a localização ou dividir senhas, por exemplo, não caracteriza automaticamente uma situação abusiva. O alerta surge quando essas práticas envolvem pressão, ameaças, vigilância imposta ou consequências negativas para quem estabelece limites.
Violência digital também cresce no Brasil
No Brasil, os números reforçam a necessidade de ampliar essa discussão. Segundo dados do Ministério das Mulheres, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências de violência contra mulheres no ambiente digital entre janeiro e maio de 2026, contra 5.795 no mesmo período do ano anterior. O aumento foi de 188,6%.
Outro dado, da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência, mostra que 18% das mulheres entrevistadas não se reconheceram espontaneamente como vítimas de violência, identificando a situação apenas quando apresentadas a exemplos concretos de comportamentos abusivos.
A análise internacional também chama atenção para uma preocupação mais recente: o uso da inteligência artificial como ferramenta de violência. A criação de imagens íntimas falsas, as ameaças envolvendo deepfakes e o uso de ferramentas digitais para manipular ou intimidar parceiros ampliam as formas pelas quais o abuso pode se manifestar.
Em um contexto em que estar conectado faz parte da rotina afetiva, reconhecer a diferença entre proximidade e vigilância se torna um passo importante para construir relacionamentos mais saudáveis.