Previsões elevam risco de El Niño “forte” ou “muito forte” neste ano; veja como o RS pode ser afetado

18/04/2026
Fonte: GZH / Foto: Octacílio Freitas Dias

Fonte: GZH / Foto: Octacílio Freitas Dias

Os alertas para o risco de um El Niño intenso ganharam força ao longo das últimas semanas em razão de novas previsões climáticas divulgadas por centros internacionais de meteorologia. Isso amplia o risco de enchentes no Rio Grande do Sul, embora a magnitude das inundações também dependa da combinação de outros fatores.

Um dos indícios mais preocupantes foi divulgado neste mês pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF). A maior parte de um conjunto de simulações calculadas pela organização aponta para uma elevação da temperatura média do Oceano Pacífico acima de 2°C em relação ao padrão histórico no mês de outubro, o que indica um fenômeno “muito forte”.

O El Niño é classificado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos de acordo com o quanto a temperatura da água do mar supera o esperado:

 

Fraco: 0,5ºC a 0,9ºC

Moderado: 1ºC a 1,4ºC

Forte: a partir de 1,5ºC

Muito forte: a partir de 2°C

 

O ECMWF realiza um conjunto de simulações em paralelo, com variações mínimas nas condições iniciais, para projetar diferentes cenários. Os resultados indicam que ainda há incerteza sobre a potência do fenômeno esperado para o segundo semestre de 2026, mas grande parte das projeções individuais antecipa um episódio superforte, com variações que poderiam ultrapassar os 3°C (patamar sem registro histórico recente).

– As previsões atualizadas sugerem aumento da chance de termos um El Nino este ano e, se olharmos o “espalhamento” das previsões, percebe-se que quase nenhum cenário aponta para aumentos pouco significativos de temperatura. Ou seja, são fortes os indícios de que algum El Niño teremos, que pode ser fraco, mas também muitos membros indicam potencial El Niño forte – avalia o hidrólogo do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Fan, lembrando que o ECMWF é considerado o melhor centro de previsão meteorológica do mundo.

Ao observar o gráfico do centro europeu, o professor de Ciências Atmosféricas e Ambientais da Universidade Estadual de Nova York em Albany, Paul Roundy, postou em uma rede social no dia 5 de abril: “Potencial real para o evento de El Niño mais forte em 140 anos”. Roundy observa ainda que ventos fortes soprando de Oeste no Pacífico Ocidental estão “empurrando águas quentes para o equador e impulsionando-as para Leste, contribuindo para o aquecimento acelerado no Pacífico oriental”, segundo declarou ao Weather Channel. Houve 27 períodos de aquecimento anômalo do Pacífico desde 1950, mas somente cinco deles alcançaram a categoria mais intensa — a última vez foi entre 2015 e 2016.

Já a NOAA elevou a probabilidade de ocorrência do El Niño de 80%, conforme boletim divulgado no mês passado, para cerca de 90% a partir do final do inverno, de acordo com um novo comunicado publicado neste mês. A entidade estima ainda 26% de chance de um episódio “forte” no trimestre de novembro deste ano a janeiro de 2027, e 25% de probabilidade de uma ocorrência “superforte” no mesmo período – superando 50% de risco acumulado nas duas categorias (veja gráfico abaixo).

– De fato, temos essa probabilidade de um El Niño já no período de agosto, setembro e outubro com possibilidade de uma condição forte ou muito forte, ou seja, acima de 2°C de anomalia, mas principalmente em um período um pouco posterior, mais para o final do ano – afirma o meteorologista Melk Duarte, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

 

Cheias dependem de outros fatores, dizem especialistas

O risco aumentado de um El Niño não significa que os gaúchos vão passar por um cenário de inundações catastróficas como o registrado em 2024. É preciso prestar atenção a dois fatores:

 

1. Previsões de longo prazo são menos precisas

Ainda é cedo para determinar com certeza a intensidade do aquecimento do Pacífico. Meteorologistas do Hemisfério Norte costumam se referir a uma “barreira de previsibilidade da primavera” devido à maior dificuldade de estimar a potência das anomalias antes de junho – quando pequenas variações ainda podem alterar significativamente a configuração final do El Niño.

– Estima-se que o El Niño esteja configurado a partir de junho. Mas, com relação à intensidade, ainda há muita incerteza. Os modelos internacionais apresentam, pelo menos, um fenômeno moderado, enquanto alguns centros apontam (anomalias) acima de 1,5°C, 2°C, outros ainda acima disso, em um valor que pode eventualmente chegar, mais para a primavera e o verão, até a 2,5°C, 3ºC. Então, para ter maior confiabilidade, teremos de aguardar um pouco mais – opina o meteorologista Fábio Pinto da Rocha, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

 

2. Outras condições climáticas são importantes

As inundações tomaram o Estado dois anos atrás por uma rara coincidência de fatores, que fizeram com que chuvas torrenciais castigassem uma mesma região ao longo de vários dias.

– Naquele período, houve a conjunção de um aquecimento anômalo do Atlântico Sul, o que já leva a um aporte de umidade, e de um bloqueio atmosférico que manteve as frentes (frias) mais estacionárias na Região Sul. Então foi a junção desses fatores que resultou naquele problema. É difícil prever com tanta antecedência se esses fatores estarão presentes novamente ou não – complementa Melk Duarte.

Procurada por Zero Hora, a Defesa Civil estadual informou que o governo deve se manifestar sobre o tema a partir desta sexta-feira (17).


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