Thiago Kieling fez um relato emocionante
Durante sua explanação na Câmara de Vereadores, na segunda-feira (6), o tesoureiro da Associação Amigos dos Autistas (AMA) de Dois Irmãos, Thiago Kieling, fez um relato emocionante sobre os desafios e as conquistas de quem tem filho com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
– Eu venho aqui representando a figura paterna, o pai atípico. Sou pai de dois meninos, Rodrigo de 15 anos e Bernardo de 10. Meu filho Bernardo foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista com nível de suporte grau 1 há aproximadamente dois anos e meio. Juntamente com ele, eu também fui diagnosticado com nível 1 de suporte. Ser pai de uma criança autista é caminhar por um mundo em que ninguém te ensina a atravessar. Diferente do que muitos pensam, não é sobre ser forte o tempo todo, é sobre aprender a ser humano de um jeito completamente novo – declarou.
A seguir, confira outros momentos importantes do seu relato:
Novos significados
– A paternidade ganha novas cores, novos desafios e sobretudo novos significados. Não é apenas sobre educar, proteger e amar, é também sobre aprender todos os dias, desconstruir expectativas e celebrar conquistas que, para muitos, poderiam passar despercebidas. Eu não fui preparado para isso, acredito que nenhum pai é. A gente cresce ouvindo que o pai precisa ser o pilar, o que sustenta, o que resolve, mas ninguém fala sobre o silêncio que a gente engole, sobre as dúvidas que a gente esconde, sobre o medo constante de não estar fazendo o suficiente – porque quando você tem um filho autista, o suficiente nunca parece suficiente. É entender que o amor também se expressa no detalhe, na paciência e na persistência. Não é um caminho igual ao de outros pais: não é melhor e não é pior, é diferente. Essa diferença traz desafios que muita gente não vê.
Rotina imprevisível
– Eu aprendi a comemorar coisas que antes passariam despercebidas: um olhar, um gesto, um avanço pequeno mas gigante para quem vive essa realidade. Enquanto o mundo cobra grandes conquistas, eu celebro batalhas invisíveis que só quem vive entende. E tem dias em que dói: dói ver meu filho sendo incompreendido, dói perceber os olhares julgando como se fosse falta de limite, como se fosse fase; dói não conseguir explicar para o mundo o que ele sente, porque às vezes nem ele consegue. Tem vezes em que uma simples saída de casa exige um planejamento, um preparo emocional e uma coragem. A rotina pode ser imprevisível, e um olhar atravessado na rua pode pesar mais do que qualquer palavra.
Preconceito ainda existe
– Muitas vezes falta compreensão por parte da sociedade, e sim, o preconceito ainda existe. É nesses momentos que a gente se pergunta se está fazendo o suficiente, se está fazendo o certo. Mas também tem dias de uma beleza absurda, dias em que ele me ensina que o amor não precisa de palavras, que conexão não depende de padrão, que ser diferente não é ser menos; é desenvolver um olhar sensível para detalhes que o mundo costuma ignorar: um contato visual que dura alguns segundos a mais, uma palavra dita depois de muito esforço, um gesto de carinho inesperado. Cada pequeno avanço carrega um valor imenso, porque vem acompanhado de dedicação, paciência e persistência.
Por um mundo mais justo com ele
– Ser pai de uma criança autista me tirou do automático, me obrigou a desacelerar, a observar e a sentir; me ensinou a ser paciente, mais presente e mais verdadeiro. É ser um tradutor de emoções, um defensor, um educador, um terapeuta improvisado, um porto seguro; é celebrar o tempo do meu filho, respeitar o jeito único dele ver o mundo, mesmo quando o mundo não está preparado para entendê-lo. É muitas vezes ser uma voz ativa na luta por inclusão. E talvez o mais difícil de tudo seja isso: a gente não fala tanto o que queria, porque o pai muitas vezes se cala, apoia, sustenta, protege, mas guarda para si o peso, o medo, o cansaço. Só que por trás desse silêncio existe um amor que não cabe no peito, um amor que luta todos os dias, mesmo sem aplausos, mesmo sem entender completamente o caminho. Eu não sou um pai perfeito, mas sou um pai que aprende todos os dias com o filho que a vida me confiou. Eu não crio meu filho para caber nos padrões: eu luto para que o mundo seja mais justo com ele. E enquanto isso, sigo aprendendo com ele todos os dias, porque no fim das contas ele me ensina mais sobre empatia, força e amor do que qualquer outra coisa na vida.