Mortes por picada de cobra podem chegar a 513 mil por ano, estima levantamento

04/11/2026
Fonte: Revista Galileu / Foto: Pixabay

Fonte: Revista Galileu / Foto: Pixabay

Quando alguém sofre uma picada, a indicação é levá-la imediatamente ao hospital mais próximo para que ela possa tomar o soro antiofídico, que neutraliza o veneno e impede a intoxicação. Mas, fora de regiões metropolitanas ou cidades, é comum que vítimas não consigam chegar a um hospital a tempo de receber medicação. Esta é uma realidade especialmente em regiões mais pobres do planeta, como a África Subsaariana, onde o risco de morte por eventos do tipo aumenta muito.

Por conta da dificuldade de acesso, também é quase impossível encontrar dados confiáveis sobre o número de mortes causadas por envenenamento causados por cobras no mundo. Prevendo uma possível crise de subnotificação, pesquisadores fizeram uma revisão na literatura e criaram um modelo estatístico para tentar entender a dimensão do problema a nível mundial. O estudo foi publicado na revista PLOS Medicine em agosto.

Dileepa Ediriweera, cientista de dados em saúde da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, escreveu, em comunicado, que “mais da metade dos países onde cobras venenosas representam uma ameaça não registram quantas pessoas são picadas ou envenenadas”.

 

Estatística para driblar a subnotificação

Os cientistas usaram como referência um artigo liderado por Anuradhani Kasturiratne, publicado também da PLOS Medicine, de 2008. Para atualizar os dados dessa pesquisa, a equipe analisou dados de 79 países, revisando estudos publicados até 31 de março de 2025.

Os dados, no entanto, pareciam não demonstrar a realidade mundial. Para comprovar essa hipótese, os pesquisadores criaram um modelo geoestatístico que combina dados do mundo real com fatores ambientais e socioeconômicos locais. A tecnologia consegue, por exemplo, detectar que uma área com ampla variedade de cobras venenosas têm problemas sociais e econômicos intensos, o que dificulta a notificação de mortes e até o atendimento médico.

Ediriweera considera o modelo como uma previsão de padrões invisíveis. “Em vez de assumir dados para cada região, esse modelo usa probabilidade estatística para calcular uma gama de resultados prováveis ​​com base em sinais ambientais”, explica.

“Alimentamos nosso modelo com dados que incluíam clima, riqueza de espécies de serpentes e indicadores socioeconômicos. O modelo então calculou a probabilidade de ocorrência de mordidas de cobra em locais específicos, mesmo onde os registros oficiais de saúde estavam completamente em branco”, completa o pesquisador.

Com base nessas estatísticas, a equipe estima que pelo menos 2,1 milhões de pessoas sofrem envenenamento por cobra anualmente em todo o mundo. Esse número pode chegar a 7 milhões, considerando as variações do modelo estatístico. Já as mortes podem variar de 274 a 513 mil por ano.

 

Distribuição desigual

O número de envenenamento por cobra, seguidos por morte ou não, ocorre com frequências diferentes em cada lugar do mundo. A pesquisa identificou que a África Subsaariana, sozinha, tem mais de 45% dos casos. Países como Nigéria, República Democrática do Congo e Etiópia enfrentam ainda mais dificuldade, especialmente por suas grandes populações rurais e alta exposição em campos agrícolas.

Segundo Ediriweera, os problemas da região não são acidentais, mas sim estruturais. “Em primeiro lugar, o continente abriga uma rica diversidade de espécies venenosas de importância médica”, explica.

Outro problema são as condições de trabalho nas regiões rurais desses países. Milhões de pessoas trabalham no campo sem botas de proteção e andam na selva durante a noite. “Quando ocorre uma picada, a fragilidade dos sistemas de saúde, as longas distâncias até os centros regionais e o alto custo ou a total ausência de um antídoto eficaz fazem com que uma emergência médica tratável possa rapidamente se tornar fatal”, diz o pesquisador.

Quando alguma pessoa consegue, felizmente, sobreviver ao acidente, ainda há a possibilidade de carregar sequelas para sempre. O modelo estima que mais de 800 mil sobreviventes ficam com deficiências físicas de longo prazo a cada ano, incluindo amputações e outras sequelas permanentes. Essas deficiências podem reduzir a renda familiar, aumentar os custos com saúde e empurrar famílias de agricultores já vulneráveis ​​para uma situação de pobreza ainda maior.

 

Por que saber disso é importante?

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu a meta de reduzir pela metade a mortalidade e a incapacidade causadas por picadas de cobra até 2030. O problema é que, se os dados são insuficientes, como será possível saber se a meta realmente foi atingida?

Por isso a pesquisa de 2026 é tão importante. “Para atingir a meta da OMS, é preciso abandonar as suposições e usar dados espaciais de risco para orientar políticas no mundo real”, revela Ediriweera.

Conhecendo os pontos críticos de alto risco, governos e parceiros globais de saúde podem enviar mais doses de soro antiofídico e estocá-lo onde ele é mais necessário. Além disso, também é importante treinar profissionais de saúde da atenção primária em zonas rurais com alta incidência de picadas e melhorar a infraestrutura de transporte rápido.

“O envenenamento por cobras permaneceu oculto por muito tempo. Dados mais precisos não resolvem o problema, mas podem ajudar a garantir que o soro antiofídico, os serviços de saúde e os esforços de prevenção cheguem às comunidades que mais precisam”.


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