Dia da Indústria: celebração e identidade no Vale do Sinos

25/05/2026
JDI entrevistou José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Feevale (Foto: Divulgação / Feevale)

JDI entrevistou José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Feevale (Foto: Divulgação / Feevale)

No dia a dia da economia, a palavra indústria está caracterizada por diversos significados, desde uma empresa de pequeno porte, até uma fábrica de qualquer tamanho de um parque industrial, que trabalhe com atividade de transformação e usem maquinarias que tenham como objetivo criar um terceiro produto.

Inegavelmente, a indústria não está somente na cidade como era algum tempo no passado, cuja migração campo/cidade aconteceu de forma descontrolada e sem a devida capacidade de trabalho para dinamizar esta nova fase da economia, cujo trabalhador deve estar especializado para tal tarefa. Ultimamente, a indústria também está no campo, com as agroindústrias, in loco, transformando e/ou beneficiando as polpas de frutas para melhor aproveitar o mercado consumidor e as perdas dos produtos gerados no campo.

Neste 25 de maio, comemora-se o Dia da Indústria, reconhecendo sua importância com o desenvolvimento econômico e social brasileiro. A data foi instituída em homenagem ao empresário industrial e escritor brasileiro Roberto Simonsen, que em seus anos de vida contribuiu significativamente para o setor.

Para entender melhor o cenário atual da indústria, o Jornal Dois Irmãos entrevistou José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Universidade Feevale, que falou sobre desafios e perspectivas acerca do setor e região.

 

Qual é a importância do Dia da Indústria para refletir sobre o cenário industrial brasileiro atualmente?

José Antônio – O Dia da Indústria possui grande relevância porque representa o papel estratégico do setor industrial no desenvolvimento econômico e social do país. O setor industrial forma a base da economia moderna, funciona como o motor da economia, abastece o comércio e gera uma demanda massiva por serviços especializados, sendo o setor encarregado de gerar empregos qualificados, agregar valor à produção, estimular a inovação tecnológica e fortalecer a competitividade nacional.

 

Como a indústria da região do Vale do Sinos tem se transformado nos últimos anos e qual seu futuro?

José Antônio – Incontestavelmente, a região do Vale do Sinos passou por importantes transformações nos últimos anos. Historicamente reconhecida pela força do setor coureiro-calçadista, a região é madura porque há muito tempo vem trabalhando na diversificação da sua matriz produtiva, tornando-se um polo industrial exportador importante, ampliando investimentos em tecnologia, automação, logística, metalmecânico, economia criativa e serviços industriais especializados. O futuro da região tende a estar associado principalmente à inovação, à indústria inteligente, adaptando-se às novas exigências globais, especialmente em sustentabilidade, internacionalização e transformação digital. Desta maneira, a importância da região proporciona e evolução do emprego no Estado, gera renda, maior arrecadação dos tributos, que bem aplicados, elevam o bem-estar da população.

 

Quais são os principais desafios enfrentados hoje pelo setor industrial?

José Antônio – No contexto brasileiro, em um cenário de transformações globais, marcado por digitalização, sustentabilidade e reorganização das cadeias produtivas, a data convida à análise dos desafios estruturais brasileiros, como carga tributária elevada, custos logísticos, a insegurança regulatória, a dificuldade de acesso ao crédito em determinados segmentos, principalmente pelo alto custo do dinheiro, que inibem os investimentos, perante a necessidade constante de inovação. Somando-se a isso, a escassez de profissionais qualificados em áreas técnicas e tecnológicas, além da forte concorrência internacional. Por força de tudo isso, é urgente a necessidade de acelerar processos de digitalização e adaptação às práticas de sustentabilidade ambiental e governança corporativa, uma vez que estamos bem-posicionados no mercado global, sendo o único país que conversa com Estados Unidos e China, e recentemente o Acordo Mercosul X União Europeia permite transitar em um mercado  de 700 milhões de consumidores e de grande estímulo à modernização tecnológica do parque industrial e atração de investimentos europeus.

 

A tecnologia e a automação vêm mudando o perfil dos profissionais da indústria. Como a universidade percebe essa transformação?

José Antônio – É notório que a tecnologia e a automação vêm promovendo uma profunda mudança no perfil dos profissionais da indústria. Atualmente, as empresas demandam trabalhadores com maior capacidade analítica, domínio de tecnologias digitais, visão sistêmica e habilidade para lidar com dados, processos automatizados e inteligência artificial. A Universidade percebe essa transformação como uma oportunidade de modernizar currículos, fortalecer as metodologias práticas, aproximando os estudantes da realidade industrial. O profissional do futuro precisará unir conhecimento técnico, pensamento crítico e capacidade de adaptação contínua.

 

De que forma a universidade contribui para a formação de profissionais preparados para o mercado industrial?

José Antônio – Seguramente a Universidade contribui de diversas formas para a formação de profissionais preparados para o mercado industrial. Isso ocorre por meio de currículos atualizados, laboratórios tecnológicos, projetos de pesquisa aplicada, extensão universitária, programas de estágio e parcerias com empresas por meio de hubs de inovação que conectam a academia ao mercado. Além da formação técnica, as instituições de ensino superior também trabalham competências comportamentais, como liderança, trabalho em equipe, comunicação e resolução de problemas, aspectos cada vez mais valorizados pela indústria contemporânea.

 

Quais áreas industriais têm apresentado maior crescimento ou demanda por profissionais?

José Antônio – Atualmente, áreas ligadas à automação industrial, análise de dados, logística, engenharia de produção, tecnologia da informação, inteligência artificial, energias renováveis e gestão da inovação apresentam forte crescimento, além dos setores relacionados à sustentabilidade industrial e à chamada Indústria 4.0, que integra sistemas digitais, conectividade e automação avançada nos processos produtivos. Em síntese, funções que exigem raciocínio analítico, eficiência energética e gestão de processos estão em franco crescimento, o que provoca uma maior demanda por essas habilidades profissionais.

 

Qual é o papel da pesquisa universitária no fortalecimento da indústria?

José Antônio – Certamente exerce um papel fundamental no fortalecimento da indústria, especialmente no desenvolvimento de inovação e soluções tecnológicas. As universidades atuam como espaços de geração de conhecimento, contribuindo para aumento de produtividade, desenvolvimento de novos produtos, melhoria de processos e competitividade empresarial. A aproximação entre universidade e setor produtivo permite transformar conhecimento científico em aplicações práticas capazes de gerar desenvolvimento regional e nacional.

 

Quais tendências devem impactar o setor industrial nos próximos anos?

José Antônio – Entre as principais tendências que devem impactar o setor industrial nos próximos anos estão a expansão da inteligência artificial, automação avançada, internet das coisas, manufatura inteligente, economia verde e transição energética. Além disso, temas como sustentabilidade, ESG, rastreabilidade, segurança cibernética e reindustrialização baseada em inovação devem ganhar cada vez mais relevância. O consumidor também tende a exigir produtos mais personalizados, sustentáveis e tecnologicamente integrados.

 

De que maneira os estudantes podem se preparar melhor para atuar no setor industrial?

José Antônio – A preparação para atuar no setor industrial exige formação multidisciplinar e atualização constante. Nesse contexto, os estudantes do ensino médio podem iniciar sua qualificação profissional por meio de instituições do Sistema S, como o Serviço SESI/SENAI, que desempenha papel estratégico no desenvolvimento da indústria brasileira. Sua atuação está fundamentada na educação profissional, na inovação tecnológica e na consultoria às empresas, contribuindo para o aumento da produtividade e da competitividade industrial. Além do domínio técnico, torna-se cada vez mais importante o desenvolvimento de competências digitais, capacidade de resolução de problemas, visão estratégica e habilidades de comunicação. A participação em programas de aprendizagem industrial, estágios e experiências práticas aproxima os jovens das demandas reais do mercado de trabalho. A Indústria 4.0 já é uma realidade no Brasil, e a expansão dessas tecnologias exige profissionais cada vez mais qualificados e preparados para ambientes produtivos altamente tecnológicos. Nesse cenário, o aprendizado contínuo consolida-se como um dos principais diferenciais competitivos para a inserção e permanência no mercado de trabalho, e aqui cabe um alerta aos estudantes: corram porque o futuro é construído hoje.

 

O que representa celebrar o Dia da Indústria em uma região historicamente industrializada como o Vale do Sinos?

José Antônio – Celebrar o Dia da Indústria em uma região historicamente industrializada como o Vale do Sinos representa reconhecer a contribuição econômica, social e cultural do setor para o desenvolvimento regional. A indústria ajudou a construir a identidade econômica da região, gerando empregos, renda e oportunidades ao longo de décadas. Ao mesmo tempo, a data simboliza a capacidade de reinvenção do Vale do Sinos diante das mudanças econômicas globais, reforçando a importância da inovação, da educação e da cooperação entre empresas, universidades e sociedade para garantir competitividade e oportunidades de desenvolvimento econômico e social nos próximos anos. Parabéns a todos que transformam desafios em oportunidades e contribuem para construir uma indústria cada vez mais forte, moderna e sustentável.


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