Fonte: Revista Galileu / Foto: Pixabay
O que faz algumas pessoas persistirem diante de desafios, enquanto outras desistem quando a tarefa fica difícil? Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Nagoya, no Japão, identificou um grupo de neurônios que parece ser essencial para sustentar a motivação, especialmente quando é preciso fazer mais esforço para alcançar uma recompensa.
Os resultados, publicados na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), mostram que os chamados neurônios de orexina aumentam sua atividade à medida que o esforço necessário para atingir um objetivo cresce. A descoberta pode ajudar a explicar os déficits de motivação observados em transtornos como depressão, TDAH e dependência química.
A orexina é um neuropeptídeo conhecido por regular funções básicas do organismo, como sono, apetite e gasto energético. Nos últimos anos, pesquisas passaram a sugerir que ela também participa da regulação da motivação, mas seu papel ainda não era totalmente compreendido.
Para investigar essa hipótese, a equipe liderada por Hiroyuki Mizoguchi, professor associado da Escola de Medicina da Universidade de Nagoya, desenvolveu uma nova linhagem de ratos geneticamente modificados que permitiu controlar especificamente os neurônios produtores de orexina.
O modelo representa um avanço importante, já que experimentos desse tipo costumam ser realizados em camundongos por limitações técnicas. Os pesquisadores optaram pelos ratos por apresentarem maior capacidade de aprendizado e desempenho em testes comportamentais complexos.
Quanto maior o esforço, maior a atividade cerebral
Os cientistas utilizaram diferentes técnicas para observar como esses neurônios influenciavam a motivação. Em um dos experimentos, eles ativaram artificialmente os neurônios de orexina e submeteram os animais a um teste em que era necessário realizar um número crescente de toques para conseguir uma recompensa alimentar. O ponto em que cada rato desistia da tarefa servia como medida de sua motivação.
Os animais com neurônios de orexina ativados persistiram por mais tempo antes de desistir. Enquanto ratos nos quais essas células haviam sido seletivamente degeneradas interromperam a tarefa muito mais cedo.
Na etapa seguinte, os pesquisadores registraram a atividade desses neurônios em tempo real. Eles observaram que a atividade aumentava antes da obtenção da recompensa, diminuía logo após ela ser recebida e permanecia elevada quando a gratificação esperada não aparecia. Além disso, quanto maior era o esforço exigido para conquistar o alimento, mais intensa se tornava a atividade neuronal. Segundo os autores, esse padrão sugere que o cérebro integra simultaneamente a expectativa pelo prêmio e o esforço necessário para alcançá-la.
Como foi feito o estudo
Para confirmar essa relação, a equipe utilizou optogenética, técnica que permite controlar neurônios por meio de luz. Quando os pesquisadores reduziram temporariamente a atividade dos neurônios de orexina justamente no momento em que os animais esperavam a recompensa, a motivação caiu. Os ratos passaram a demorar mais para concluir as tarefas e desistiam mais rapidamente.
O resultado contrário, porém, chamou atenção. Estimular esses mesmos neurônios acima dos níveis naturais não fez os animais se tornarem ainda mais motivados. Essa diferença indica que os neurônios de orexina funcionam como um componente indispensável para manter o comportamento da motivação, mas seu simples aumento de atividade não é suficiente para elevar a motivação além do nível normal. Outros circuitos cerebrais provavelmente também participam desse processo.
"Nosso estudo demonstrou mudanças significativas na atividade dos neurônios de orexina dependendo das recompensas esperadas e do esforço exigido, sugerindo um mecanismo potencial para traduzir expectativas em ação sustentada", afirma Hiroyuki Mizoguchi, professor associado da Universidade de Nagoya e um dos autores do estudo, em comunicado.
Os pesquisadores destacam que compreender como a orexina participa da motivação pode abrir caminho para novas abordagens terapêuticas voltadas a condições caracterizadas pela perda de interesse e dificuldade em manter comportamentos direcionados a objetivos, como depressão, TDAH e transtornos relacionados ao uso de substâncias. Segundo a equipe, os próximos estudos buscarão mapear os circuitos cerebrais que se conectam aos neurônios de orexina para entender como eles interagem com outras regiões envolvidas na tomada de decisões, recompensa e persistência.