Por que células de vacas podem ajudar na busca por novos tratamentos contra o câncer

03/08/2026
Fonte: Revista Galileu / Foto: Pixabay

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Uma das características mais marcantes do câncer é sua capacidade de escapar da morte celular programada, um mecanismo natural do organismo conhecido como apoptose. Esse processo funciona como uma espécie de sistema de segurança: quando uma célula sofre danos irreparáveis, ela recebe sinais para se autodestruir, evitando que continue se multiplicando. Mas as células cancerígenas conseguem driblar esse mecanismo, sobrevivendo e se espalhando pelo corpo.

Agora, pesquisadores da Universidade de Leipzig, na Alemanha, identificaram um modelo que pode ajudar a entender melhor esse processo e no desenvolvimento de novos medicamentos. Segundo um estudo publicado em 14 de julho na revista Archives of Toxicology, células de bovinos apresentam um comportamento surpreendentemente semelhante ao das células humanas em proteínas fundamentais para a apoptose, e, em alguns aspectos, podem representar um modelo mais fiel do que as células de camundongos normalmente usadas em laboratório.

Como destaca a revista Discover, a equipe concentrou a investigação em duas proteínas fundamentais para a apoptose: BAX e BAK. Elas atuam na mitocôndria (estrutura responsável por produzir energia para as células) e participam da ativação da morte celular. Para entender melhor como essas proteínas funcionam em diferentes espécies, os cientistas compararam amostras de sangue humano com células e tecidos de vacas, camundongos, ovelhas e porcos.

Os pesquisadores descobriram que, nesse aspecto específico, as células bovinas apresentavam maior semelhança com as células humanas do que as células de camundongos, que são frequentemente usadas em pesquisas pré-clínicas para testar possíveis medicamentos. A proteína BAX das vacas era mais parecida com a versão humana, e a organização das proteínas BAX e BAK na membrana da mitocôndria também apresentava características semelhantes entre humanos e bovinos.

De acordo com os cientistas, essa semelhança pode tornar mais confiáveis os testes de novas substâncias candidatas a medicamentos. Como as células bovinas reproduzem melhor alguns dos mecanismos observados nas células humanas, elas podem reduzir a chance de resultados enganosos nas primeiras etapas do desenvolvimento de tratamentos, explica Frank Edlich, professor da Universidade de Leipzig e autor do estudo, em comunicado.

Para avaliar o comportamento das células bovinas, a equipe realizou experimentos com células do fígado de vacas. Os pesquisadores testaram diferentes compostos e acompanharam a ativação da apoptose usando diferentes métodos de análise, incluindo microscopia de alta resolução.

A descoberta não significa que células bovinas substituirão completamente os modelos usados atualmente. Os próprios pesquisadores destacam que a semelhança encontrada está relacionada especificamente à regulação das proteínas BAX e BAK durante a apoptose mitocondrial. Ainda será necessário investigar se essa correspondência entre bovinos e humanos aparece em outros tipos celulares e diante de diferentes substâncias.

Mesmo assim, os resultados abrem uma nova possibilidade para a pesquisa de medicamentos. Para os autores, a criação de modelos celulares bovinos padronizados poderia complementar os estudos existentes e, em algumas situações, ajudar a substituir parte dos testes tradicionais.

A ideia é especialmente relevante para o câncer porque muitas terapias dependem justamente da capacidade de induzir a morte de células tumorais. Ao entender melhor como esse mecanismo funciona em modelos mais próximos dos humanos, pesquisadores podem encontrar formas mais eficientes de desenvolver tratamentos que façam as células cancerígenas perderem sua capacidade de sobrevivência.


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