Fonte: GZH / Foto: Saulo Cruz/Agência Senado
Os votos brancos e nulos para presidente caíram mais de 70% em duas décadas no Rio Grande do Sul. O índice caiu de 13,84% em 1998 para 3,66% em 2022, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A tendência também foi observada nas disputas para governador, senador, deputado federal e deputado estadual.
Para o doutor em Ciência Política Fábio Hoffman, o fenômeno pode ser explicado por uma combinação de fatores. Entre eles estão a polarização, que se acentuou nos últimos anos, e a conversão das redes sociais em um espaço cada vez mais relevante para o acompanhamento da política e das eleições.
– A ascensão das redes sociais como plataformas de difusão instantânea dos fatos, incluindo o mundo da política, não só fez com que aumentasse o acirramento político-eleitoral como também mostrou a cada eleitor que o seu voto importa – afirma.
A escolha por um candidato também pode estar ligada ao chamado “voto por rejeição”, segundo Hoffman. Nesse caso, a decisão pode ser motivada menos pela identificação com uma candidatura e mais pelo intuito de evitar a vitória de um adversário. As pesquisas de intenção de voto, que se tornaram mais frequentes no Brasil ao longo das últimas décadas, assumem papel importante nessa decisão:
– Elas oferecem subsídios para o cálculo do eleitor direcionar seu voto em candidatos competitivos contra aquele adversário que ele não quer ver eleito.
Voto branco x voto nulo: saiba a diferença
Os votos em branco e nulos não são considerados válidos e, portanto, não entram no cálculo do resultado da eleição. São registrados apenas para fins estatísticos.
– Voto em branco: ocorre quando o eleitor não manifesta preferência por nenhum dos candidatos. Na urna eletrônica, é feito ao pressionar a tecla “Branco” e, em seguida, “Confirma”.
– Voto nulo: ocorre quando o eleitor escolhe uma opção que não corresponde a nenhum candidato ou partido. Na urna, é feito ao digitar um número inexistente, como “00”, e pressionar “Confirma”.
Senado tem a maior taxa entre os cargos em disputa
Apesar da queda geral, os percentuais de brancos e nulos não são iguais entre os cargos. Em 2022, eles corresponderam a 3,66% dos votos para presidente, 7,72% para governador, 13,57% para senador, 10,50% para deputado federal e 10,29% para deputado estadual.
Para Hoffman, a importância atribuída pelo eleitor a cada cargo ajuda a explicar as diferenças nas porcentagens. Além disso, o nível de informação disponível sobre os candidatos tende a variar conforme a disputa.
– Além de haver menos candidatos para os cargos majoritários, eles são mais publicizados, ou seja, o eleitor sabe mais e tem mais informações sobre os candidatos à Presidência da República e governador do que para os candidatos a deputado federal e estadual – destaca.
O Senado, porém, foge a essa lógica e acumula historicamente as maiores taxas de votos brancos e nulos no Rio Grande do Sul. O pico ocorreu em 2018, quando o índice chegou a 22,79%. Naquele ano, com duas cadeiras em disputa, o eleitor precisava escolher dois nomes.
Essa dinâmica pode ter contribuído para a alta no percentual de votos nulos, já que, se o eleitor repetisse o mesmo candidato nas duas escolhas, o segundo voto era anulado. Em 2022, apenas uma vaga estava em disputa. Em 2026, serão novamente duas.
Abstenção dispara com descrença em relação à política
A redução dos votos brancos e nulos, por outro lado, não significa, necessariamente, maior engajamento do eleitorado. Em 2022, ao mesmo tempo em que esses índices caíram, o Rio Grande do Sul registrou 19,68% de abstenção no primeiro turno, a maior taxa da série histórica iniciada em 1990.
Os indicadores representam comportamentos diferentes. O eleitor que vota em branco ou nulo comparece à urna, mas não escolhe uma candidatura para determinado cargo. Já a abstenção ocorre quando ele não se apresenta para votar.
O cenário observado no Estado é semelhante ao que ocorre em âmbito nacional. No primeiro turno de 2022, votos brancos e nulos somaram 4,41% no país, o menor percentual desde 1994, ante 8,8% em 2018. Ao mesmo tempo, também no segundo turno daquele ano, a abstenção chegou a 20,9%, com mais de 32 milhões de eleitores ausentes.
Para Hoffman, a abstenção está ligada à desconfiança e à desilusão com a política. A partir de estudos na área de comportamento político, o pesquisador observa que parte do eleitorado não atribui ao voto um papel relevante na definição dos rumos do país.
– O eleitor mediano, ou seja, aquele que não tem a política como sua preocupação central, não se importa com o peso da sua participação, acreditando que votando ou não, as coisas não irão mudar – avalia.
Ele também aponta que as consequências previstas em lei para quem deixa de votar são pequenas. Mesmo com comportamentos diferentes, Hoffman avalia que o índice baixo dos votos brancos e nulos deve se repetir nas próximas eleições se a polarização política permanecer.